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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Contos de São Cristóvão


Contos de São Cristóvão

Foto ©Manuel Tavares 

I Capítulo
Fonte da Pedra

A pequena Inês olhava o rio... Tinha chovido um pouco na noite anterior e ele vinha mais arrebitado. Na outra margem a Azenha, em tempos recuperada e agora de novo em ruínas e cheia de graffiti, estava envolta numa leve bruma o que lhe dava um certo ar de mistério. A professora do bairro dissera-lhe que a Azenha possuía origens romanas e ao vê-la assim Inês até a conseguia imaginar como pertença de tão longínquos tempos.

Inês naqueles momentos ainda achava mais estranhas as complicações dos adultos. Tudo parecia parar e preenchê-la por dentro... Ela deixava-se levar... levar... E quanto mais ia mais ficava presente... Era uma sensação inebriante, poderosa e no entanto sempre frágil.

O sino da Igreja bateu as oito horas da manhã. Inês assustou-se porque já estava atrasada para a aula da Tia Cristina e ainda não tinha ido buscar água à fonte para a mãe. Ter uma professora da família é sempre aborrecido porque conhecem todas as nossas desculpas. Olhou mais uma vez para o antigo parque, agora um caos de pequenas hortas, barracões e matagal e correu em direcção à Fonte da Pedra...

Quando lá chegou lá estava a Dona Armandinha em estranhos preparos. Tinha a saia levantada com uma mão e com a outra empurrava a água fresca da fonte para as partes íntimas sem o mínimo pudor. Aquela hora já havia fila para a água e as pessoas atrás da Dona Armandinha, habituadas ao espectáculo, dividiam-se como sempre entre a censura e o gozo:

- Ó minha senhora veja lá se nos enche a fonte de marisco! Dizia o Senhor João do beco.
- Dona Armandinha pelo amor da Santa faça isso em casa! Não é com essa idade que essa água lhe faz mover o moinho! Dizia a Senhora Rosa que morava junto ao antigo posto de correio.
Ninguém sabia ao certo a idade de Dona Armandinha, mas teria certamente para cima de 80 anos. Como era viúva e sem filhos fazia a sua vida sozinha e ferozmente autónoma, por isso enquanto chapinhava na fonte ia respondendo:
- O João tu já não deves ver deste marisco há muito. E tu Rosa!? Estás mais seca que uma ameixa, bem precisavas deixar aqui o bacalhau de molho...

Inês já estava habituada a estes intermináveis despiques... Esperou pacientemente a sua vez, encheu o vasilhame e voou para São Cristóvão contando os passos até casa da Tia Cristina, que eram exactamente setecentos e dois desde a fonte.

Por volta do passo duzentos passava debaixo da janela do amiguito Zé que aquela hora há muito estava pendurado em cima do parapeito esperando a amiga passar:

- Inês onde vais com tanta pressa? A tua mãe deu-te feijoada ao pequeno-almoço?
- Ó Zé para ti todos andam com pressa! Andas gordo de tanta compota que a tua avó te enfia no pão! E olha...Tira lá o dedo do nariz que mais um bocado ainda te sai pela boca!

E antes que o Zé respondesse já a Inês ia quase no passo duzentos e cinquenta. Era ligeira a miúda, magrinha mas cheia de nervo, bem mais forte do que aparentava. Com dez anos poucos rapazes da idade dela ou mesmo mais velhos tinham coragem para lhe fazer frente.

Ao passo quatrocentos e treze deu de caras com o Senhor Correia que gentil como sempre lhe perguntou pela mãe e resto da família. Dizia-se que o Correia era podre de rico e assim se manteve mesmo depois do grande crash. Contudo nunca havia deixado o apartamento de que era proprietário junto ao recinto da feira.
Bem na verdade não era um apartamento mas sim dois ligados entre si. Inês já lá tinha entrado um dia visto que a mãe conhecia o Senhor Correia, tendo inclusive trabalhado para ele na altura em que era contabilista. O apartamento tinha um enorme salão rodeado de colunas decoradas com arabescos. Tudo aquilo gozava de um ar surreal pela grandiosidade raramente esperada em semelhante habitação. Tudo aquilo possuía também uma história, uma história triste por sinal.

O casal Correia morava anteriormente numa autêntica mansão. Essa mansão possuía um fantástico salão onde os Correias organizavam festas e se dançavam elegantes valsas. Os Correias tinham dois filhos pelos quais nutriam enorme carinho. Num já longínquo ano o mais novo falecera num acidente de viação. Os Correias, subjugados pela dor, abandonaram a mansão repleta de memórias  e foram viver para o actual apartamento, alugando o enorme imóvel a uma Clínica de fertilidade primeiro e mais tarde à "Universal East Corporation", por todos conhecida simplesmente por "Corporação".

Ao passo quinhentos Inês passou nas traseiras do antigo restaurante "O pançudo feliz". Os pais falavam muito daquele restaurante onde iam namorar nos tempos de universitários. "Relação qualidade-preço imbatível" dizia o pai, "Fantástico gourmet para remediados" dizia a mãe. “O pançudo feliz" não foi no entanto nada feliz depois do grande crash. Aguentou pouco mais de um ano até chegar ao "sacrilégio" de ter "prato do dia". O dono, o Sr. Rodrigo, resolveu então fechar de vez o restaurante abrindo mais tarde, numa fracção do mesmo espaço, um tasco de petiscos, desta vez com um nome mais curto, "O pançudo".

Inês viu o Sr. Rodrigo espreitando atrás de umas couves onde anteriormente era o parque de estacionamento do "O pançudo feliz". O Sr. Rodrigo, homem de aspecto refinado e aristocrático, nunca havia recuperado psicologicamente do fecho "do seu menino" como lhe chamava. Tornou-se uma pessoa de comportamento errático e imprevisível e sem a mínima noção do ridículo ou inconveniente. Anos e anos de respeito pela etiqueta como que se evaporaram por implosão.

Inês, mesmo sabendo que o pobre homem já não "jogava com o baralho todo", não resistiu em perguntar-lhe o que fazia ali, como para confirmar os seus mais íntimos receios:

- Senhor Rodrigo que faz aí na horta agachado atrás das couves?
- Adubo para trufas meu amor, adubo para trufas ... Sabes o que são trufas Inês?
- Não Senhor Rodrigo, mas deixe lá que me parece demasiado ocupado e eu com demasiada pressa...
- Inêsinha, Inêsinha... Sempre foste desde pequenina uma moça de resposta pronta, cumprimentos aos paizinhos!
Dito isto instintivamente levantou-se abanando a mão em jeito de despedida para horror de Inês confrontada com semelhantes preparos indignos. Devido à súbita mudança de posição, o Senhor Rodrigo acabou por desequilibrar-se caindo para trás em cima do próprio "adubo" que acto contínuo ficou firmemente agarrado às suas calças de flanela. No entanto continuou a falar com Inês como se nada fosse:
- Não tem mal Inês, não tem mal, logo, logo faço mais e deste ainda se aproveita algum minha querida.

© Manuel Tavares 2013



II Capítulo
O Tenente

Tenente Cardoso passava protector solar nos braços calma e cuidadosamente. A camisa de manga curta caqui, farda de verão da milícia da Banca, era cada ano que passava mais usada. Um início de Março quente, húmido e abafado fazia adivinhar uma terrível Primavera e um inominável Verão.

Aqueles gestos lentos, quase sensuais do Tenente, tinham o condão de irritar o Sargento Fonseca, também conhecido simplesmente como "Chefe":
-"Deves ser daqueles que congela preservativos cheios de água e diz que são para tratar das hemorróidas... Deves ser deves" Pensava irritado e divertido ao mesmo tempo. Aquele insultar mental do Tenente era um exercício que o equilibrava por dentro.

Todas as manhãs era a mesma rotina. Tendo em conta as informações recolhidas dos vários espiões espalhados pela região, mais as prioridades da enorme lista de devedores, decidia-se as acções a seguir durante o dia ou madrugada se necessário (e cada vez mais o era, dado que a pressão das chefias não parava de aumentar).

O Tenente continuava a espalhar o protector... Aquele que usava de momento ultrapassava o prazo em mais de dois anos mas eram difíceis de encontrar no mercado negro. Por isso cada dose era aproveitada até à exaustão por gestos certos, pausados e elegantes, naquela dança que tanto tirava o Sargento do sério.

Cardoso sabia bem que tinha trejeitos que alguns poderiam considerar femininos. Nem sempre fora assim, aliás era grande o sucesso entre as mulheres do Tenente (facto que enlouquecia ainda mais o Sargento).

Era uma "estória" antiga. Como todos na milícia da Banca tivera anteriormente outra ocupação antes do grande crash, e Cardoso tinha sido músico. Fora violetista de razoável sucesso e sendo um dos preferidos do seu professor na universidade, este sugerira ao Director de Curso a sua entrada como assistente mal surgiu a oportunidade.

A relação de Cardoso com o seu professor aos olhos de terceiros sempre parecera dúbia. O professor era homossexual não assumido e Cardoso, inconscientemente ou não, para lhe agradar assumiu um certo número de tiques e atitudes. No entanto nunca nada se passou de facto entre os dois, mas Cardoso, inadvertidamente ou não, alimentou sempre a esperança do professor que algo poderia acontecer um dia, não deixando por isso de coleccionar namoradas em catadupa.

Mas a marca desses anos de estudo duro e insegurança em relação ao futuro ficaram-lhe no corpo... E aquele passar lânguido da mão pelo braço peludo, excepcionalmente peludo até, isso o revelava.
E tanto esforço para nada... Depois da confusão imediata do grande crash a que rapidamente se sucedeu o fecho da Universidade e a dissolução da orquestra onde ainda ia tocando, as suas economias chegaram ao fim num abrir e fechar de olhos, o que o levou a aceitar todo o tipo de trabalhos de ocasião.

- Ó Fonseca!
- Sim meu Tenente?
- Sabes em que cheguei a trabalhar antes de ser teu Tenente?
- Era segurança deste Banco onde estamos meu Tenente...
- Antes disso Fonseca, antes disso. Sabes um dia estava eu a mijar numa casa de banho de um centro comercial, sabes aquele grande perto de Gaia que agora não me lembra o nome, aquilo já fechou para aí há 15 anos, quando se chega um gajo ao pé de mim e me começa a olhar para a pila. Pensei que o gajo era paneleiro ou o caralho, e às tantas o gajo disse "Eh pá, cá grande bacamarte meu, olha lá queres fazer uns filmes?"
Sabes Fonseca ainda pensei duas vezes, mas pensei "que se foda!". E literalmente assim o fiz... Fartei-me de foder e ganhar dinheiro fácil... Bons tempos...

"Deves ter fodido deves", pensou Fonseca, " Andaste foi a abafar palhinhas tamanho jumbo".
Cardoso parecia adivinhar os pensamentos de Fonseca, o que convenhamos não era difícil pelos esgares que este fazia, por isso adorava provocá-lo, e continuou naquele jeito de falar de ele próprio quase na terceira pessoa que tantas vezes construía, não olhando para o interlocutor como se a vista estivesse voltada algures para dentro em missão infinita, e com um ligeiro sorriso trocista nos lábios:

- Fonseca era cada "mula" pá! Aquilo é que eram belíssimos sacos de H2O mais uns pozinhos...Não estás a ver, eram às dúzias umas atrás das outras ... Tão boas que só de me lembrar quase me ponho em pé sem mexer as pernas!
De repetente o Tenente ficou sério mesmo antes que Fonseca começasse a espumar. Em tom grave, levemente afectado mas impecavelmente profissional ditou as ordens do dia:

- Sargento há novidades de São Cristóvão. Recebi há pouco uma mensagem das chefias a informar-me que um dos infiltrados que eles lá têm lhes reportou que pelo menos 3 famílias em dívida andavam invulgarmente activas nestes dias. Tenho aqui as moradas de todas, já sabe o que fazer...
- Sim meu Tenente, vou juntar os homens e vamos já para lá...
- Sargento menos aparato que da última vez... Leve três viaturas descaracterizadas e abordem as três moradias em simultâneo...
- Ok meu Tenente, é para já!
- Sargento quero resultados e não desculpas... Mais uma coisa Sargento... Era cada "mula" Fonseca, cada "mula"!

© Manuel Tavares 2013







III Capítulo
Galáxias de pó

Zé olhava para os primeiros raios de sol que entravam no quarto...
O pó rodopiava preso na luz, planetas em órbitas erráticas formando imensas galáxias...
Tempo mel escorrendo nas formas... Denso, quase cimento... Esmagando docemente todo e qualquer pensamento.
Do mundo exterior chegavam mais e mais sons... Quebravam como ondas na praia estática do corpo que era máscara... Do Zé.

- Zé! Está pronto o pequeno-almoço!

Torradas feitas na grelha gasta acumulando sabores anteriores... Compota de tomate da avó... Abrindo caminho à manhã aquele sabor caramelizado, canela, mel, frutos do bosque e claro... Tomate.
Cheirava a cevada com leite... Uma cevada que era quase um segredo de Estado... Inconfundível, inebriante, irrepetível... O triunfo absoluto do sonho sobre a aleatoriedade da matéria, que se sucedia “calendariamente” a cada pequeno-almoço...

A avó não cozinhava, amava. Cada ida à cozinha era uma oração. O ambiente era descontraído naquela importante divisão da casa, mas cada gesto daquela senhora, redondo mas preciso, impunha um respeito natural. Aquele tipo de respeito que as crianças interiorizam sem esforço, mas que adultos menos avisados espezinham como paquidermes.

Zé entrou quase aos rebolões na cozinha como se nunca lá estivesse estado, coisa que fazia... Todos os dias. De alguma forma a antecipação de aromas e sabores ficava sempre aquém da realidade, porque a realidade era não só melhor, como diferente. Isso criara-lhe um vício, um doce vício, aliás doce, amargo, salgado, ácido e etc. e tal.
No entanto naquele dia comeu um pouco mais rápido, o que lhe valeu daquelas reprimendas da avó seguidas de mimo a dobrar. Estava atrasado para a janela, sim a janela junto à rua onde sempre via os mesmos rostos dar rosto à manhã, a sua manhã.

A rotina das pessoas, ao contrário do que as mesmas pensam, nem sempre é aborrecida de observar. A renovada coragem e obstinação com que enfrentam um novo dia é anonimamente heróica.
Zé sentia tudo isto sem palavras... Aliás tinha falta de palavras para tanta coisa que sentia e isso não lhe fazia falta nenhuma. As palavras são coisas aborrecidas que têm o hábito de se meterem entre nós e o que amamos. E era isso mesmo que o Zé sentia... Mais uma vez sem palavras.

E uma das coisas em que mais prazer sentia era ver Inês pela manhã. Zé iria jurar que um leve perfume antecipava a sua chegada. Depois aquele aperto no peito sempre que a via...
O tempo ficava de novo suspenso como aquando os primeiros raios de sol entrando no quarto. Esta luz parecia no entanto cegar mais que o astro-rei... A agilidade e leveza com que Inês descia a rua... Aquela passada peculiar que transpirava convicção e transparência, os seus olhos curiosos e vivos, e no entanto sempre aquela íntima fragilidade de quem parece trazer um tesouro intransmissível...

Tal como o Zé, Inês estava ligeiramente atrasada nas rotinas do seu dia, e ao vê-la assim em passo acelerado, os cabelos soltos revoltos no rosto, Zé, o mesmo que nada queria com as palavras, sentiu crescer um ímpeto, um frémito escaldante subindo a traqueia e desaguando na boca impreparada:
- Inês onde vais com tanta pressa? A tua mãe deu-te feijoada ao pequeno-almoço?

© Manuel Tavares 2013


Capítulo IV
Coprólito das Neves

A mãe dera-lhe o nome "Coprólito" porque achara um nome fino, “bom de usar quando fosse Doutor” dizia...
Ouvira o nome quando fazia “zapping” na sua TV, no tempo em que ainda se usava TV. Gostara também do nome do canal, Discovery, coisa estrangeira e de sonoridade que impunha respeito.
O nome completo ficara então Coprólito Discovery Silva das Neves. Durante anos Coprólito vivera feliz com o seu nome até aquele dia da praxe na Universidade:

- Quem é o "Trampa" das Neves? Onde está esse cagão? Vociferou em voz áspera mas divertida o "Veterano Doutor".

Coprólito estremeceu... Ok eram habituais os insultos nas praxes mas havia qualquer coisa na voz do "Doutor" que o deixou inquieto, como se este soubesse de algo para além do mero insulto gratuito. Ao "Trampa" faltara a respectiva carga depreciativa, fora dito num tom quase científico, por isso a curiosidade e ansiedade de Coprólito sobrepôs-se à vergonha:

- Emérito veterano peço perdão pela pergunta, mas "Trampa" das Neves porquê? É que já chamou uma série de colegas e só a mim me trocou o nome...
- E vou trocar outra vez... Ó Abominável Burro das Neves sabes o que quer dizer "coprólito"!? Merda pá! Merda de gente fossilizada do tempo das neves gigantes, tás a ver ó Neves borrado, do tempo em que os nossos antepassados cagavam em grutas e limpavam o cu e as mãos ao jantar...

Mais que o ridículo da situação, o que de facto abalou Coprólito foi como algo tão básico tivesse passado despercebido a tanta gente (incluindo ele próprio) desde a sua nascença, até à chocante revelação naquele preciso e famigerado momento.

Queria chorar mas não conseguia... Tudo lhe parecia demasiado insólito, e o facto de não ser propriamente um fã de arqueologia não era desculpa para nada.

Começou a rir... Primeiro baixinho, depois num crescendo que rebentou numa pirotecnia de gargalhadas. Não era contudo um riso sadio, era mais a expressão de uma consciência aguda e desesperada de algo que lhe escapava totalmente ao seu controle.

"Que se passara no registo civil? Eu sei que há muito a ordem é para fazer vista grossa a todo tipo de nomes mas aquilo não lhes pareceu demais!?" Pensou Coprólito.

Se Coprólito pudesse voltar atrás no tempo ouviria a seguinte conversa no dia em que a sua mãe fora, emocionada e trémula, ao registo civil:

- Eh pá Victor saiu daqui há pouco uma mãe que baptizou o filho com o nome de... Coprólito!
- Que cena é essa Jorge? Parece nome... de... de... cagalhão seco!
E riram... Riram muito, para eles era apenas algo mais para quebrar a rotina, mal sabendo Victor a quão a sua definição estava próxima da realidade...
- Victor, Victor! (Disse Jorge limpando as lágrimas do riso) Imagina se a mãe... Se a mãe lhe chamava... "Fezes das Neves"!?

Nova explosão de risos... Essa manhã no registo civil seria tema de conversa em todos os futuros jantares de reformados do serviço. Basicamente todos os sinónimos possíveis de “merda” foram mencionados naquela manhã, sendo que nunca ninguém se lembrou de investigar o que significava de facto "Coprólito", senão a casa teria ido certamente abaixo com terremotos de gargalhadas...

Coprólito não teve coragem de telefonar à mãe imaginando o desgosto que lhe daria. Esta era uma mulher simples mas sempre lhe fora dedicada e protectora, seria demais para ela imaginar o estigma que lançara sobre o filho.
Coprólito no entanto podia ser ignorante em relação a matérias de etimologia, mas era muito aplicado em Gestão Bancária e mal acabou o curso foi convidado para professor na própria Universidade onde havia concluído a licenciatura.

Uns anos mais tarde, tinha já Coprólito o doutoramento feito, apareceu-lhe na oral da sua disciplina nada mais nada menos que o veterano que abalara na praxe a sua existência. Este tinha basicamente andado anos perdido em bebedeiras e viagens com a tuna académica.

Quase quarentão fora pressionado pelo pai a acabar o curso ou ir trabalhar para a empresa da família. Entre essa hipótese e mais um bom par de anos de uma ou outra borga à socapa a escolha parecera-lhe simples...

Coprólito primeiro estremeceu ao ver quem tinha diante de si, mas rapidamente se recompôs e tentou parecer o mais descontraído possível, quase jovial.
Não era de todo uma pessoa vingativa, apesar de possuir excelente memória, jurou assim a si mesmo que aquela prova seria uma prova também à sua imparcialidade. Sendo assim começou como sempre começava enunciando o nome completo do aluno:

- Ora bem o seu nome completo é Octávio Veado Prematuro Buceta Bundasseca?
- É sim Doutor...
- É só para confirmar, é que no teste assinou apenas “Otávio” Prematuro.
- Sim Doutor, o nome é extenso e eu gosto de abreviar...
- É de facto extenso e.... mmmm ... curioso. O senhor é português?
- Nasci cá mas os meus pais são brasileiros...
- Ah, ok. Daí a quase ausência de sotaque... Pois... Pois de facto curiosos... Estes... Estes apelidos.
- Buceta da parte da mãe, Bundasseca da parte do pai Doutor...

Por esta altura Coprólito já se sentia desconfortável. Os restantes dois membros do júri contorciam-se nas cadeiras, num esforço titânico para manterem a compostura. Coprólito tentou tudo por tudo para alterar o rumo à conversa, mas ele e Octávio pareciam presos num vórtice suicida...

- Ok, ok Senhor Octávio... Vamos então à prova oral. Pelo que vejo aqui nas informações só lhe falta esta cadeira para terminar o curso, estou certo que ainda hoje festejará esse facto com a sua família...
Em seguida lançou o seu melhor olhar bonacheirão, ou pelo menos assim pensou, porque o que de facto transpareceu foi um esgar caricato de opção múltipla que ainda deixou Octávio mais nervoso:

- Hoje não me parece Doutor... O meu avô materno faleceu há pouco tempo, estamos todos ainda afectados com a situação...
- Perdão Senhor Octávio, os meus sentidos pêsames e que descanse o seu avô na paz do senhor...

O que se seguiu não tem de facto uma explicação racional. Na realidade Octávio não reconhecera de imediato Coprólito... Primeiro pelo nervosismo inerente a qualquer prova oral. Em segundo lugar pela sua já mencionada quase ausência da vida académica propriamente dita. Depois porque as noitadas, álcool e drogas variadas em quantidades generosas deixam as suas marcas e finalmente porque Coprólito deixara crescer a barba depois de um aparatoso acidente de trotinete que lhe deixara uma extensa cicatriz na cara.
Mas era agora claro para Octávio quem estava perante ele. Pior que isso era também claro ao seu olhar que Coprólito o reconhecera. Depois era desconcertante a forma amável e respeitosa com que Coprólito o abordava.
Tudo isto originou uma reacção em cadeia na química degradada do cérebro de Octávio. Parecia que uma força superior se apoderava dele usando agora a sua boca sem travão ou censura, pretendendo dessa forma desviante expiar pecados passados:

- O meu avô, Colapso Cardíaco da Silva Buceta, estará certamente agradecido ao Doutor, onde quer que ele esteja. A minha mãe, Mijardina Pinto Buceta, estar-lhe-á certamente também muito agradecida, essa sei que está lá fora no carro com o meu pai, Fanerozóico Fazfalta Bundasseca, sendo que o seu primeiro nome advém do grande entusiasmo do meu avô paterno Asteróide Silvério Bundasseca, também já falecido, pela arqueologia.
Já me esquecia que também veio a minha irmã, Ava Gina Buceta Bundasseca, o meu irmão Feliciano Feliz Buceta Bundasseca e um empregado que está connosco há anos, um tipo extraordinariamente dedicado e humilde, o Simplício Simplório da Simplicidade Simples…

- Ok, Ok senhor Octávio, penso ser desnecessário tanto pormenor… (Esforçou-se por dizer Coprólito sacando novamente do seu extraterreno olhar bonacheirão, para logo contemporizar não fosse Otávio sentir-se diminuído ou vítima de ironia) No entanto não pense que considero irrelevante o que nos trás. O lado humano de um gestor é para esta Faculdade muito importante. É esse lado que lhe permite, não só sentir gratidão por quem para ele trabalha, como saber motivar os membros de uma empresa.
Lembro-me perfeitamente que o meu avô, dono de uma pequena drogaria, tinha um funcionário que se encaixa perfeitamente no perfil desse empregado do seu pai… Recordo-me de facto bem dele, o Senhor António Manso Pacífico de Oliveira Sossegado, um tipo impecável que nunca levantou problemas para nada, o sonho de qualquer gestor…

-Perdão Doutor… O António Manso não era por acaso primo do Inocêncio Coitadinho?
- Sim, sim!
- Que coincidência! Esse também trabalhou para o meu pai! Mas de coitadinho não tinha nada, fazia as coisas pela calada e depois fingia que não era nada com ele. Havia um desgraçado com que ele passava o tempo a peguilhar… O Jesus Gato de Sá Pato, e a coisa só terminou com a intervenção do meu pai, porque o Jesus passava o tempo a oferecer a outra face…
- Olhe Senhor Octávio está de facto a ser um prazer falar consigo (de novo o mesmo ar bonacheirão misturado com uma vítima de electrocussão assomou à cara de Coprólito) mas temos uma prova para fazer, sente-se preparado?
- Eu sinto Doutor, apesar dos nervos, mas penso que não será possível começar sem a totalidade do júri …
“Sem a totalidade do júri !?” Pensou Coprólito em pânico … “Mas o que se passa!?”…

Ao longe ouviam-se gargalhadas histéricas no corredor de acesso às salas… Corredor esse que em dias de provas escritas ou orais, estava controlado por um segurança… Era agora claro para Coprólito que os dois restantes membros se haviam escapulido, aproveitando a evidente “química” absorvente entre ele e Octávio.

- Bem…hummm…Peço desculpa mas desconheço o que se passou senhor Octávio. Seria muito aborrecido para si marcarmos outra data para a prova?
- Não… De todo Doutor, até agradeço visto que hoje não me sinto nada bem preparado… Mas isso é possível?
- Não se preocupe, é uma excepção que só se abre para casos atípicos como este. Vou falar com o Director de Curso, o Doutor Homem Bom da Cunha Souto Maior, que é uma pessoa razoável e aberta aos argumentos certos…


© Manuel Tavares 2013







Capítulo V

O oráculo


Num verão para ele já longínquo, Gabriel  e a família foram durante a segunda quinzena de Agosto para Trás-os-Montes, mais precisamente Lamas de Orelhão, para casa de uma tia-avó.

Não conseguia esquecer-se do cheiro daquela casa. Era um misto de ervas, flores silvestres, terra e gado com um final adocicado e profundo. Depois havia os insectos, milhares deles, mas os que mais lhe metiam medo e nojo eram os louva-a-deus. Eram louva-a-Deus na sala junto aos candeeiros, louva-a-Deus na cozinha atrás das toalhas, debaixo dos panos e pior, louva-a-Deus no quarto.

Uma noite, que para ele fora terrível, precisara de ir à casa de banho e esticara a mão para a cabeceira em busca dos óculos. Os óculos estavam dentro do seu estojo mas não estavam sozinhos, em sua companhia um gigantesco louva-a-Deus saiu com os membros posteriores a dar a dar.

A reacção de Gabriel fora imediata… Óculos, estojo e louva-a-Deus voaram pelos os ares e só um milagre impediu que as preciosas lentes se quebrassem depois de semelhante festival aéreo.

No entanto esta não era a única lembrança de Gabriel das noites de Lamas de Orelhão… O sino batendo as horas nas madrugadas densas de Verão que o calor tornava intermináveis, o constante cantar dos grilos e das cigarras, o ocasional latir de um cão e claro, aquele cheiro persistente da casa que a horas tardias, por razões que Gabriel nunca descortinaria, lembrava mais carnes fumadas, com notas de sebo ligeiramente rançoso, palha seca e estrume de vaca.

Todos estes cheiros poderiam ser excessivos por si só, mas naquele “bouquet” tornavam-se harmoniosos, com carácter, reconfortantes até, como emprestando à noite uma personalidade acrescida.

Depois havia a alma da casa ... A sua Tia Avô Clarinha. Dona Clarinha era daquelas raras pessoas com uma imensa presença não invasiva. Todos os seu gestos transmitiam harmonia, calma e saber. Era seca de carnes e extraordinariamente ágil de corpo e mente para a idade avançada que já possuía. Nunca se furtava a nada, sempre disponível, atenta e atenciosa (porque muitos, estando atentos, nem por isso estão disponíveis).

Era maravilhoso apenas observá-la. Um ser tão gracioso é de facto raro, e uma presença assim mágica passado pouco tempo é um vício para quem dela desfruta. A pequenada prestava-lhe um respeito absoluto mas que nada devia à reverência ou medo. Era antes um deslumbramento constante, como se todos bebessem daquela fonte inesgotável de tranquila força. Ela era o farol dos dias que lhes balizava as rotinas, e contudo sempre discreta, como se levasse dentro do peito um astro que lhe concedia o dom da eterna vitalidade, num segredo só dela, mas que ía partilhando sem reservas como a todos lembrando que depende muito de nós gerar equilíbrios.

Numa manhã ele e o irmão mais velho Tomé resolveram ir ao monte que se avistava da aldeia. A manhã estava radiosa e límpida como todas as manhãs daquela temporada. A Tia Clarinha foi avisando que o monte parecia mais próximo do que na realidade estava e aconselhou que levassem farnel e saíssem pela fresquinha logo a seguir ao pequeno almoço.
Assim fizeram. Rapidamente saíram da pequena povoação e logo os envolveu o campo. Tudo parecia vibrante, quase como numa festa tranquila mas gigante.

E de facto o monte parecia fugir à frente deles... Andavam, andavam e a cada curva do caminho lá estava ele, misterioso, imponente, mas crescendo quase nada no horizonte. Quando o calor começava a descer inclemente, deslizando pelos braços tórridos do sol de verão transmontano, chegaram finalmente à base do objectivo. E ali estava ele, de cabelos fartos de uma vegetação densa, nem sempre amiga, porque o silvado e as urtigas adoram acariciar os caminhantes mas estes têm tendência a achar tais mimos pouco desejáveis, e foram assim acumulando um arranhão ali, uma coçeira acolá, mas algo os impelia monte acima, como se a lei da gravidade estivesse invertida, como se um chamamento quase inaudível lhes sussurrasse promessas de algo sem nome nem imagem...

Teias de aranha quase tão grossas como linha de coser surpreendiam-nos pela sua resistência. Logo viram suas donas, aranhas gordas e cinzentas como nunca antes tinham visto. Outros insectos que nem sabiam nomear voavam, rastejavam, trepavam pelas árvores e arbustos, e o receio inicial foi sendo substituído pela curiosidade de desvendar mais e mais mistérios e nem sentiram as horas a passar. Logo as sombras minguaram no sol do meio-dia para logo de seguida crescerem. Já a tarde ia alta quando chegaram a uma clareira perto do topo, e foi aí que Gabriel, como se mão invisível o agarrasse se sentou... Nem reparou que Tomé distraído seguiu caminho, entusiasmado pela proximidade do topo.


Há muito que haviam parado de conversar. Como se o monte lhes impusesse um voto de silêncio quase religioso. Tomé seguia entusiasmado como uma seta em direcção ao topo. Era apenas isso que lhe ocupava o pensamento, o antecipado prazer do triunfo de contemplar quilómetros de paisagem a seus pés. Tudo não passavam assim de etapas, aquela rocha de formato curioso, depois uma árvore alta, ou uma clareira no meio da densa folhagem ...


Assustou-se ... quase entrou em pânico ... que sensação era aquela afinal ? Lentamente foi-se apercebendo que tudo aquilo era apenas ... ele próprio, e a surpresa residia apenas em nunca se ter sentido assim antes... tão vivo, tão presente.... O bater do seu coração, o respirar rítmico dos pulmões, o corpo actuando em harmonia pulsante para manter cada célula em funcionamento, um mecanismo preciso e maravilhoso que ele nunca tinha testemunhado com tanta intensidade.
Aquele era ele? Onde andara tanto tempo? Parecia que havia estado ausente praticamente desde que nascera, ausente de si, do seu próprio corpo, daquela mesma morada, que sendo sua , era afinal morada de algo que lhe parecia agora hostil, desconhecido como se tivesse sido invadido e só agora visse claramente a face do inimigo!

Um grito cortou o ar. Gabriel estremeceu como acordasse de um sonho de décadas ... os gritos sucediam-se, não eram de aflição ou pânico, pareciam antes alguém a brincar com a reverberação do som ecoando pela encosta abaixo até ao vale ... era um som familiar... demorou o que lhe pareceu um tempo infinito para reparar que era afinal apenas o seu irmão Tomé que berrava como um bezerro desmamado lá do topo do monte, não tardou que ele gritasse pelo seu nome:
- Gabriel! Gabriel! Onde estás meu maricas de merda!? Vê se acordas ó sornas ou estamos bem fodidos e refodidos não tarda nada quando descer o sol!

O som saiu - lhe da boca como algo automático, como se fosse ele próprio observador absoluto e implacável  das suas acções. Foi pois num reflexo involuntário que lhe saíram da boca palavras que pareciam vindas de outro eu, um eu rotineiro, um eu com que demasiadas vezes vira confundido todo o seu ser, um eu mais ligado à  sobrevivência que à consciência, um eu mestre na arte da resposta rápida, na guerrilha implacável da ironia pronta:

- Eu é que pergunto cara de cu ! Tu ainda estás aí em cima e eu já cá estou mais em baixo a caminho de casa!


© Manuel Tavares 2015

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