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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

“Vivo muito à superfície das coisas”

"The purgatory stone"
© manuel tavares



“Vivo muito à superfície das coisas”
Homo Sapiens Sapiens Sapiens 30 de Agosto de 2620

A palavra salta da boca
No sentido interno
Desce furiosamente
Esse caminho estranho
E meia louca
Entranha-se num repente
Passando a garganta
E assim segue
Até que no final
De todo este sem destino
Se afoga no corpo
E dentro das artérias
Num gesto sem igual
Funde-se em brasa
No próprio sangue veloz
Tornando-se suas moléculas
Que a levam agora
Ao interior do mais interno
Que pulsa sem nome
Num universo sem voz…
Aí nada consegue
Determinar ou classificar
Está sentada na origem do grito
Que um dia se fez fala
Ordenada e servil.

Tudo é imensamente pequeno
E parece viver
Normalmente eterno
Numa parte
De uma parte
Deste átomo
E toda esta riqueza
A palavra não a veste
Apenas sente
Porque ao deitar-lhe a mão
Parece tocar sem pudor
Dentro de si mesma
Recortando partes iguais
De coisa nenhuma.

Apenas a embala
Uma estranha canção
Sem uma única letra
Sem um único som
Com um único tema
Uma dúvida crescente
Amarga e doce:
Será este berço do verbo
Anónimo e invisível
A origem de toda a fé?

Uma tensão imensa
Projecta de novo a palavra
Desta em vez em sentido inverso
Toda a imensa viagem
Parece-lhe agora
Apenas a epiderme
De um enorme lago
Sem fundo alcançável
De superfície espelhada e silente
E toda esta aventura
Razão última
De todas as aventuras
E todas as estórias
Que são a história.

Sendo assim
Nenhuma enciclopédia conteria
Um mero detalhe deste caminho
Nem qualquer outro suporte
Que transporte informação
Inventado ou por inventar
Seria assim suficiente
Para sendo assim
Conseguir ser
Ou porventura
Algum dia sonhar
A isso pretender.

A língua contrai-se
E a boca
Numa acção reflexa
Repetida e maquinal
Finalmente expulsa
Sua atarefada prisioneira.

Os sons ainda há pouco
Perdidos e surdos
Vão chocando harmónicos
Com as moléculas do ar
Construindo relações
Que desaguam num final
Que mesmo esperado
Não deixa de ser um milagre:
- Bom dia Dona Rosa. São dez pães se faz favor.


© Manuel Tavares 2004

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