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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Um dia na varanda...



Desculpem aqueles que esperavam que hoje falasse dos "inteligentes como uma porta" que botaram "faladura" na Assembleia da República... Não me apeteceu vê-los quanto mais falar deles...

Para mim o 25 de Abril sempre foi um sentimento muito pessoal. Quando sucedeu a data propriamente dita era um bebé de 2 anos, mas incrivelmente lembro-me de estar na varanda fazendo o "v" da vitória...

Depois tudo o que se seguiu nos anos seguintes... Aí as memórias são mais vívidas... Grandes manifestações na praça Humberto Delgado... Enormes bandeiras nacionais... As tardes quentes por fora e por dentro... Uma sensação indescritível de esperança, de que tudo seria possível a partir dali...

Eram dias gigantes. As pessoas andavam de alma lavada, e como era criança naturalmente não tinha ideologia ou clube partidário. Absorvia tudo como uma esponja, e aquilo que "bebia" gostava.

Por outro lado um país que obviamente não mudou da noite para o dia. Natural do Porto cedo senti as suas particularidades. Uma cidade dominada por meia dúzia de famílias, umas burguesas, outras com uma "patine" aristocrática decadente, presas num mundo retirado de um romance de Eça de Queiroz...

Era uma cidade de contrastes gritantes. Bairros populares (ilhas), com situações medievais e uma pobreza franciscana. Na escola tudo se notava como hoje... A fome... A falta de educação e cultura, ou seja, enormes clivagens sociais.

Depois meninos que pareciam saídos de um universo à parte... Que cedo ingressavam nos colégios e externatos existentes um pouco por toda a cidade, ou se deslocavam para esta ou aquela escola pública melhor referenciada, as tais escolas dos betinhos.

Eu era "classe média"... Aquela coisa indiferenciada, sem identidade marcada, mas que no fundo sustentava em grande parte todo um sistema, e que era a primeira a sentir na pele as suas contradições, fragilidades e crises...

Hoje passados quase 40 anos parece que voltou tudo ao início, se calhar estava fadado a que assim fosse.
Como posso eu ter assim vontade neste dia de ver discursar quem se vê a milhas que não o sente? Porque ao contrário do que muitos dizem, gostar deste dia não é uma "coisa de esquerda", pessoalmente nunca o senti assim, gostar deste dia é gostar da possibilidade de mais possibilidades serem isso mesmo, possíveis!

© Manuel Tavares 25/04/2013

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