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sábado, 13 de abril de 2013

A dependência da "criação estática de riqueza".





Há uns tempos fui a uma loja de ferragens de um Centro Comercial aqui de Ovar... Quando lá cheguei encontrei o sítio...
A loja era grande... Imaginei as sensações de todos aqueles que foram despedidos... Para afastar a depressão resolvi ir comer no mesmo centro comercial num sítio com uns grelhados porreiros... Chegado lá encontro o sítio... Estranhei... Estava sempre cheio... Perguntei... "Renda alta"... Perguntei noutro sítio "Sabe... Até tinham clientes... Mas a renda era alta".

Já tinha ouvido o mesmo noutras ocasiões... Quando fechou uma sapataria , depois uma loja de sopas , outra sapataria , uma loja de artigos desportivos, uma de chaves e concerto de calçado ... E etc, etc, etc ...

Há um conceito, que eu analfabeto do "economiquês" chamo "criação estática de riqueza"... Tomemos o exemplo deste centro comercial, relativamente recente, houve nele obviamente um considerável investimento inicial, não nos terrenos certamente, que naquela zona devem ter sido "vendidos" ao preço da chuva pela câmara.

Esse investimento tem de ser obviamente amortizado, mas é necessário esmifrar os lojistas?

O país está cheio de estes exemplos de "criação estática de riqueza". Começam inúmeras vezes com um investimento agraciado de condições vantajosas por parte do Estado (ou seja, todos nós os que pagamos), geralmente a troco de uma promessa de postos de trabalho para população e etc. e tal...

Vejamos por exemplo as fábricas de muitas multinacionais, quando deixam de criar um índice de "riqueza estática" pornograficamente alta os seus donos dão à sola, deixando para trás desemprego e expectativas goradas, e levando consigo as inúmeras vantagens fiscais e patrimoniais que lhes foram concedidas pelo Estado (ou seja, todos nós os que pagamos).

Para desanuviar um exemplo de "criação estática de riqueza" por parte do Estado, a ponte 25 de Abril. Foi concluída em 1966 e paga não sei quantas vezes até hoje.

Evidentemente há gastos de manutenção, certamente muito inferiores à receita que uma infra-estrutura daquelas gera, e no entanto eis um investimento pago por todos nós e que se transformou num fantástico encargo... Para muitos de nós.

Voltando ao Centro Comercial... Porque continuam eles a insistir em preços absurdos que se tornam insustentáveis para os lojistas em tempo de crise e respectiva quebra do consumo?

Mais uma vez a resposta reside no conceito de "criação estática de riqueza". Os donos do Centro possuem obviamente reservas desse tipo de riqueza, o que lhes permite hibernar durante um período de crise e, lamentavelmente, essa acção (que é habitual a todos os que acumulam "riqueza estática") têm o condão de o prolongar.

A hibernação da economia advém precisamente da alienação do capital, transformado em "criação estática de riqueza", gerando imensas reservas de "verdinho" que circula sobretudo de forma virtual (aplicações nos esquemas habituais financeiros) deixando a economia real órfã e a pão e água.

Todos gostaríamos de ter o nosso esquema gerador de "criação estática de riqueza" (o aluguer de um apartamento por exemplo). Eu não me importava e dava-me imenso jeito, agora quando estes esquemas extravasam os limites razoáveis surgem problemas, nada razoáveis.

Mas afinal o que quero eu dizer com essa esquisitice que intitulei "criação estática de riqueza"? Estática porquê?

Chamo estática porque penso que há um equilíbrio que não deve ser quebrado entre o que efectivamente produzimos ou investimos e aquilo que acumulamos.

Não vamos ser todos milionários, e muitos mais pessoas do que julgamos até se está a borrifar para isso e contenta-se com um grau de riqueza que lhe permita sobretudo viver com dignidade.

No entanto o que se passa cada vez mais é que a economia real está a ser sequestrada por práticas e conceitos que estão fadados a originar a sua queda, uns defendem que sazonais, outros afirmam que um dia será final e irremediável.

Será assim legítimo que para uns poucos criarem doses massivas de "riqueza estática", muita dela proveniente inevitavelmente da riqueza de todos, assaltada através dos recursos que estamos fartos de conhecer, se ponha em causa a dignidade do cidadão comum?

É assim extremamente perverso, que consciente ou inconscientemente, sejam criadas condições para uma efectiva exploração do homem pelo homem, não porque não há riqueza disponível, mas porque não só está concentrada como é mal usada, ou nem sequer é investida quando mais era necessário esse investimento.

Não leiam nestas palavras algo de ideológico, nada mais errado, acredito que os sistemas são bons quando servem um único propósito, dão espaço ao indivíduo para este criar a sua própria liberdade, e não o utilizam para outro fim que não seja a manutenção das mínimas condições para que essa liberdade possa surgir.

Sendo assim pouco interessa o "pacote" e muito menos o nome do mesmo. O actual esquema político - económico pode implodir a qualquer momento se continuar a sofrer das mesmas subversões que o têm assolado. Se isso é bom ou mau é difícil de responder. Partindo do curto prazo será certamente mau precisamente para os mais frágeis, de que paradoxalmente o esquema actual se alimenta e perpetua.

Portanto era fixe que o "pacote" se aguentasse fazendo as necessárias reformas para se tornar mais amigo do homem e da economia real. Assim como está não vejo alicerces sólidos onde os nossos filhos possam crescer com esperança.

Esperança. Falo em esperança porque seguranças absolutas não há e é mentiroso quem as vende. O homem tem uma natural necessidade de se tentar superar, de jogar com os seus limites, de ter iniciativa, isso faz parte da sua evolução espiritual.

Naturalmente também tem de haver uma ideia de comunidade e solidariedade muito mais madura que a actual, que ultrapasse a "caridadezinha" privada ou estatal, e promova um ambiente social e económico mais saudável e sobretudo dinâmico, precisamente mais independente da tal "criação estática de riqueza".

        © Manuel Tavares 16/02/2013

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