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sábado, 20 de outubro de 2012

O homem obra, a obra nasce!







O obrar, apesar de todos dizerem que é uma necessidade básica e fundamental, é subestimado.

Muitas obras nasceram na cabeça daqueles que obravam.
 Não é líquido que obrar seja sempre inspirador, até porque pode ser uma actividade dura, mas é indubitável que na maior parte dos casos relaxa, e o relaxar despoleta secretas capacidades.

O que quero provar é que obrar, apesar de ser um prazer basicamente individual e hedonista, traz enormes benefícios à humanidade.

O primeiro, e mais evidente para mim, tem a ver com o vocabulário corrente. Nunca irão ouvir alguém dizer "estou-me a tilintar para isso", ou "estou-me a espraiar para ti", ou "este governo é um conjunto disforme de vermes invertebrados " (bem, pensando melhor, a última frase pode, eventualmente, ser utilizada em situações mais formais).

O obrar e derivados trouxe à nossa vida uma enorme muleta verbal. Como já não bastasse o alívio fisiológico que nos traz, ainda consegue aliviar o nosso stress mental, levando à fabricação de elaborados impropérios, ou a aquela descarga momentânea, que sucede quase involuntariamente, quando cortamos um dedo, ou damos com uma canela na esquina de uma cama.

Numa sociedade cada vez mais exigente, obrar traz consigo aquela rara oportunidade de introspecção e privacidade. Ninguém gosta de obrar por detrás de uma porta de serapilheira, e as casas de banho com dois "tronos" nunca se tornaram verdadeiramente populares.

Esses momentos de maravilha e antecipação são marcadamente simbólicos. O esforço que se concretiza, a espera que traz frutos, a sensação que se materializa. Num só momento, estão reunidos quase todos os processos que dão sentido à vida.

É por estas e por outras  que não compreendo o ostracismo, o quase silêncio a que este acto nobre é votado (mesmo quando todos sabemos que pode ser bastante ruidoso).

No fundo parece que ninguém obra. Dou-vos um exemplo, estão a ver os Óscares e de repente trocam de apresentador? O que pensam que ele foi fazer quando volta sorridente? Foi obrar.

Vejam a Assembleia da República. Quando os trabalhos são interrompidos pela presidente com uma voz trémula e aflita o que acham que se passa? Vontade de obrar. Vejam agora a pressa com que eles saem do hemiciclo... Qual é a única coisa, o único objectivo de todos, naquele momento fatídico para o saneamento básico daquele nobre edifício? Obrar.

Já repararam naquelas transmissões de ano novo do Presidente da República, quando ele pára por momentos que parecem quase intermináveis fitando o vazio? Vontade de obrar. O ministro das finanças, com que todos gozam pela sua lentidão de discurso, afinal o que se passa ali? Uma incontrolável vontade de obrar, a que obviamente se sobrepõe o dever da causa pública.

Poderia estar aqui discorrendo intermináveis exemplos, o que seria fastidioso certamente. No entanto, tal como toda a gente, também a mim me calha a hora desse evento único que é tão pouco compreendido e  acarinhado. Com a vossa licença, vou obrar.


© Manuel Tavares 20/10/2012

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