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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

O "Giroflé"


Um dos meus primeiros alunos particulares possuía a interessante alcunha de "Giroflé". 

Hoje ri-me ao recordar-me dele, também pela alcunha mas não só. Todo ele era nervos da cabeça aos pés, e claro, cada gesto isso mesmo transmitia. magrinho e eléctrico assim me lembro dele. 

Recordo-me particularmente de uma aula por mim dada em casa de seus pais. A mãe era igualmente um ser nervoso mas de outro género. Conhecem aquelas pessoas que nos fazem sentir “a mais” apenas com um olhar? Como se fôssemos pouco mais que um criança, cuja toda e qualquer acção merece ser vigiada e corrigida, e, provavelmente, merece de igual forma uma rígida e pesada reprovação? 

O pai deixou-me apenas a recordação de uma figura fugidia. Uma espécie de mensageiro da rotina de que apenas me lembro ver murmurar algo ao ouvido da esposa. Pelo ar que ela fez não seria coisa agradável... 

O ambiente era portanto denso. Via-se que viviam em dificuldades gerindo um negócio familiar. Tudo transpirava prazos, coisas para resolver e para pagar, e pouco tempo ou dinheiro para ambas. 

Passado um pouco a impressão inicial que retive da mãe do "Giroflé" adquiriu outros tons. O seu rosto fechado, o olhar impaciente e preocupado, a sua energia como se movendo num curto-circuito permanente, os meios sorrisos, que afinal não escondiam uma ironia cansada, mas talvez apenas a perda de fé em melhores dias. 

O "Giroflé" transportava tudo isso ao tocar, melhor, nas suas quase vãs tentativas de o realizar. Nunca senti que dentro dele encontrasse espaço onde se "sentar". O espaço estava ocupado, totalmente ocupado, depois daquele dia percebi "com quê". 

Hoje lembrei-me então do "Giroflé". Não pude impedir um sorriso, daqueles que nos sobem do coração até à boca. No entanto foi uma lembrança agridoce, que será feito do "Giroflé"? Terá finalmente encontrado espaço para "se sentar"? 

Hoje lembrei-me do "Giroflé" depois de ler uma amiga. As "estórias" que trouxe ao mundo eram simples, vívidas e reais. "Estórias" de gentes que perderam espaço "fora delas", mas o mais triste não seria esse de si já dramático facto, mas o que a minha amiga muito habilmente sugeriu, do espaço que essas mesmas gentes perdem dentro delas, a cada minuto, hora e dia, o espaço onde "se sentarem". 

Porque uma aguda sugestão tem o estranho hábito de ser mais forte que uma clara afirmação, o belo texto dessa minha amiga ecoou dentro de mim, atravessou camadas de memórias e subitamente eu estava cara a cara com o "Giroflé"...Parecia que tudo tinha ocorrido hoje mesmo, como por magia lá estavam as mesmas sensações, vívidas como o texto que acabara de ler. 

De repente dei por mim a perguntar que sentido tem um mundo onde alguns insistem, não em procurar dentro de si o tal espaço "para sentar", mas optam antes por sentar-se no colo de outros?

Há espaço para todos se cada um se sentar no seu lugar... 


© Manuel Tavares 

2 comentários:

  1. sentei-me mas primeiro pus os óculos para me certificar que não havia ninguém por baixo. ;) vou favoritar esta tasca!

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    1. Já andava farto da javardeira do facebook...
      Chegou a altura de me organizar...Dar o exemplo :D
      Abraço!

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