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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"Mariquices"



O barulho do aspirador soou ameaçador. Uma corrida rápida para o escritório confirmou os meus receios... Com um ar absolutamente louco estampado na face, Mário entretinha-se a aspirar de forma sistemática e energética tudo o que via à frente, canetas, borrachas, lapiseiras, marcadores, clips e agrafes. Enquanto o fazia ia surgindo a intervalos regulares um sorriso demente que pendurava nos olhos dilatados... 
O meu primeiro pensamento foi claro como água. O meu pai não gostaria certamente de ver a sua caneta favorita, companheira de tantas horas, enrolada num novelo de pó e cabelos. O segundo foi igualmente claro...Como é que alguém poderia estar a fazer aquilo, depois da horrível manhã pela qual me havia feito passar?  

Mas voltemos umas horas atrás... 

- Vamos à "obra" ? 
- Mas queres ir à "obra" fazer o quê Mário? 
- Nada de especial pá! Vamos lá brincar ... Tu também pá ... 
- Mas brincar com o quê Mário !? Com o quê !? 
- Ora ... Brincar... Sei lá...Brincar com qualquer coisa ! 
- É que sabes Mário, da última que lá fomos não correu lá muito bem... 
- Lá estás tu pá! Não sejas mariquinhas! 

Pronto. Tinha de dizer a palavra proibida ... Mariquinhas. Claro que fui, como não poderia ir? 
Chegados à obra tudo cheirava ao habitual. Pó de cimento, pó de tijolo, pó de areia, pó de qualquer coisa indefinível mas que seria basicamente...pó. 
A obra estava parada há uns tempos mas o material encontrava-se todo por lá. Tijolos e sacos de cimento, betoneiras e carrinhos de mão tudo desarmoniosamente espalhado de forma cientifica... 

- Mário tens a certeza que os guardas não estão por aqui?  
- Ó pá! Lá estás tu pá! Lá estás tu com mariquices! A esta hora não costumam estar! Estão na obra ao lado a trabalhar e só passam aqui de vez em quando... 

Nos anos oitenta as obras disparavam por todo lado como cogumelos...A cidade parecia em certos locais um imenso estaleiro. Também não era raro algumas ficarem paradas meses ou anos a fio, sem qualquer explicação ou razão aparente. Como o imenso lago onde costumávamos brincar perto da escola, de margens a pique, que íam dar a uma substância lamacenta que nós, por preguiça, chamávamos água. Depois de repente, nasceu lá uma Igreja Baptista e perdemos o local onde perseguíamos rãs à pedrada... 

O Mário mal chegou começou logo aos chutos nos primeiros tijolos que viu, com uma alegre e inflamada fúria. Eu começava a recear que todo aquele barulho atraísse os trabalhadores da obra ao lado, mas as preocupações do Mário eram claramente diferentes. De repente parou e começou a olhar fixamente para um carrinho de mão, estávamos já nós no quarto andar, onde apenas havia tecto e colunas e nada separava a obra do exterior. 
Como sempre as "paragens" do Mário tinham o condão de me deixar mais preocupado que as actividades a que se entregava. Possivelmente porque significavam que algo se seguiria, não só inesperado, mas de grau ainda mais destrutivo que a anterior "avaria" que o entretinha. 

- Eh pá ajuda-me aqui a encher o carrinho de tijolos! 
- Para quê Mário? 
- Ouve lá, lá estás tu! Ajuda lá porra! Vamos só passear o carro aqui pelo andar. Olha está ali outro até podíamos fazer uma corrida de carrinhos, mas primeiro ajuda-me a encher aqui este que já te ajudo a encher o teu. 

A contragosto lá fiz o que me pedia. Depois de arranhar-mos as mãos em vários tijolos meio quebrados, lá enchemos o carrinho até mais não. 

- Olha pá, agora vai ali buscar o teu que eu vou só ver se dá para andar com o carrinho sozinho, tás a ver? 
- Ok Mário, mas ajuda-me a encher depois o meu também... 

Mal volto as costas começo a ouvir a deslocação do carrinho... Primeiro pesada e depois ganhando velocidade rapidamente... Demasiado rápido até... 
O estrondo foi tão grande que pensei que metade da obra tinha desabado. Olho para trás e vejo o Mário na beirinha do andar ainda ofegante, do carrinho nem vê-lo...Nada... 

- Que fizeste meu grande camelo !? 
- Ó pá, Ó pá ... Não sejas maricas pá, não foi de propósito... Eu lá sabia que havia uma betoneira mesmo aqui por baixo... 

Corro, todo eu nervos, até ao "local de lançamento". Lá em baixo assentava uma nuvem de pó, como num filme em câmara lenta. Quando finalmente foi possível ver algo, a confusão e dimensão dos estragos era indescritível...A betoneira estava tombada de lado, totalmente amolgada e reformada compulsivamente. O carrinho esse estava absolutamente desfeito. A roda da frente saltara fora com o impacto e tinha ido caprichosamente parar a um monte de entulho.  
Foi precisamente de trás desse monte que surgiram os dois guardas da obra ao lado, que como já sabíamos, estava a cargo do mesmo empreiteiro. Imediatamente se aperceberam de tudo e olharam para cima vendo-nos aos dois com cara de parvos empoleirados na borda. 

- Olha os mesmos melros de outro dia ! Agora é que vocês a arranjaram bonita, quando vos pusermos as mãos em cima não saem daqui com um par de tabefes não... 

Saltamos como uma mola. Começamos a correr em círculos como duas baratas tontas. Podíamos ouvir perfeitamente as vozes dos homens enquanto subiam as escadas, e a cada segundo que passava crescia o nosso pânico. De repente, no lado do andar mais afastado das escadas avisto o que poderia ser uma possível saída, um enorme monte de entulho que chegava quase ao segundo andar. 

- Mário vamos saltar para ali! 
- O quê !? Deves estar maluco! 

A minha cara de surpresa e desdém provocou-lhe um raríssimo efeito, Mário de repente parecia quase normal. O "mix" do medo com as suas "falas" hilariantes tornaram-no por segundos consciente da evidente idiotice que acabara de dizer. Não fosse a gravidade da situação e certamente me teria rido na cara dele durante uma hora. 

O impacto foi previsivelmente desagradável...O Mário aterrou numa parte menos densa, o que não foi propriamente uma vantagem para a sua fuga, dado que ficou enterrado até à cintura em detritos de toda a espécie. Eu acertei numa tábua e torci dolorosamente o pé, indo a deslizar em cima dela pelo monte abaixo. Teria sido divertido se conseguisse pensar noutra coisa que não naquela dor aguda que me subia pela perna acima... 

- Mário anda!  

Gritei-lhe enquanto me esgueirava por baixo do mesmo buraco na vedação de arame por onde tínhamos entrado. Para meu azar uma das aguçadas pontas de metal da vedação enfiou-se a direito na coxa da perna, a mesma do meu pé torcido. 
Mário corria aparentemente incólume, mas absolutamente irreconhecível depois do seu banho de desperdícios e pó. Como uma enguia mergulhou pelo buraco da vedação. Lá de cima do quarto andar os guardas olhavam-nos ainda incrédulos, sem proferir palavra... 

- MÁRIO ÉS CAPAZ DE PARAR COM ESSA MERDA !? 

Mário olhou para cima com um olhar vazio agarrado ao tubo do aspirador como se este fosse uma caçadeira. Era incrível a sua "dedicação à causa" depois da horrível manhã porque ambos tínhamos passado. Não resisti e preguei-lhe um valente pontapé no cu. Para meu azar usei o pé que tinha lesionado pouco mais de uma hora antes. Enquanto me contorcia de dor, ainda o consegui ouvir dizer: 

- Para tu com essas...Com essas...Com essas mariquices ! 


© Manuel Tavares 11/10/12 


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