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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A luva.




Ultimamente farto-me de perder coisas. São pequenas coisas...uma caneta...uma lata de lubrificante para a correia da mota... um carregador de telemóvel (que hoje finalmente encontrei)... aquela revista fixe que estava a ler mas deixei a meio... as meias vermelhas do futebol e já agora as caneleiras (as novas porque as outras fazem-me comichão) e...quase me esquecia, onde está a outra luva da mota? Lembrei-me só agora porquê? Lembrei-me do raio da lata de lubrificante e não me lembro de uma luva caríssima? Até a escrever "perco coisas".
E a caneta? A caneta foi-me dada por um colega (que felizmente não usa facebook). Era uma caneta espectacular de tinta permanente (não era daquelas que arranham "comó raio", era porrerinha, suavezinha "tão" a ver?")
E o carregador? Já vos falei do carregador não foi? É fixe. É daqueles que se podem deixar ligados à corrente, dá jeito, porque como sou esquecido...
A revista também era fixe. Não era uma daquelas da Deco/Proteste, cheias de testes à urina de porco, limas de três faces para as unhas ou autoclismos japoneses, não, nada disso. Era uma mesmo fixe! Abarrotava daqueles "gadjets" electrónicos, que parecem fantásticos nas revistas, coisas indispensáveis que irão mudar o nosso dia-a-dia radicalmente mas que depois... Acabam arrumadas na gaveta das coisas "indispensáveis", ou pior, acabam perdidas...
Sobre as meias vermelhas não preciso dizer mais nada. São compridas, dão até ao joelho na boa, ideais para usar com caneleiras. As caneleiras... Essas sim, preciso explicar o porquê da minha preocupação ao não saber delas (as novas, porque as velhas fazem-me comichão).
Todos já participaram num jogo de futebol com trengos de toda a espécie que acertam com mais frequência nas canelas uns dos outros no que propriamente na bola. Sabiam que muitos condutores de fórmula um têm mais medo de andar no trânsito que numa corrida? Pronto está explicada a minha obsessão pelas caneleiras (as novas, porque as velhas fazem tanta comichão que prefiro apanhar caneladas...)
Mas o que mais me enerva não é perder as coisas (apesar da cena da luva estar-me entaladinha...caras "pra" caraças o raio das luvas).
Continuando, o que mais me enerva é enervar-me...É isso! Enerva-me enervar-me! Com cenas pequeninas, insignificantes, minúsculas, mesquinhas, substituíveis ou até dispensáveis. Enerva-me não só o tempo que perco em busca delas, mas sobretudo o tempo que perco na cabeça... A pensar nelas.
Aquela sensação que o dia, mesmo que esteja a correr bem, tem algo de imperfeito, porque não me lembro da caneta de tinta permanente. Ou que o fim de semana podia ter sido mais alegre se tivesse carregado o telemóvel NAQUELE carregador (apesar da minha mulher ter um igual).
E o lubrificante da correia? Só preciso de colocar aquilo de 1000 em 1000 km mas insisto em fazê-lo de 100 em 100 km. Logo quando peguei na mota no sábado fui todo o caminho atento a barulhos e barulhinhos, (apesar de só terem passado pouco mais de 200 km desde que coloquei o lubrificante) tão atento que quase me estampava contra um pinheiro com tanta "atenção"...
As meias encontrou-as a minha mulher (o que não deixa de ser irritante para ela também, fartinha de procurar coisas minhas).
No domingo estava ansioso por as encontrar (tinham-me convidado para um jogo pela tardinha), apesar de ainda não saber onde tinha colocado as caneleiras (sem as quais nunca jogaria) no entanto acabei mais uma vez por não jogar.
Nos últimos 10 anos só consegui efectivamente jogar em três ocasiões. Só usei caneleiras na última vez, ainda por cima as que faziam comichão. Pior foi que mal tinha começado o jogo este acabou prematuramente. Um dos intervenientes na futebolada, o que mais aqueceu no início, com alongamentos e tal coisa, nem dez minutos tinham passado e...trás!! Partiu o tendão de Aquiles...Ninguém lhe tocou, aliás estava praticamente parado...coisas do diabo!
Agora podem vocês pensar, por um lado fixe porque não usei as caneleiras que faziam comichão mais de dez minutos, mas não...não. Quem acabou por levar o rapaz ao hospital fui eu a alta velocidade, de caneleiras claro está, e quem teve de "secar" quase duas horas na sala de espera cheio de comichões? Eu!
Podia ter tirado as caneleiras na casa de banho do hospital, mas como? Aquela cena está cheia de germes! Para tirar as caneleiras tinha de tirar as meias e pôr pelo menos um pé nu no chão, sujeito a apanhar uma micose, ou pior, sei lá, um cancro nos calos...
Mais tarde lembrei-me que poderia ter tirado as caneleiras sem tirar as meias…Mas como sou esquecido…
As caneleiras estavam no armário do terraço (quem deixa umas caneleiras num armário de um terraço!? Isso é cena para guardar cenas tipo... Cenas que não sabemos onde havemos de guardar como... como... umas caneleiras?)
Esqueci-me da revista. Não saber da revista arruinou-me o final da noite da passada quinta-feira. Estava mal da tripa e fui a correr para o wc convencido que a revista lá estava, amiga e acolhedora dos largos minutos que se avizinhavam... Azar! Só lá estavam revistas da Deco/Proteste...Depois de ficar a saber qual a melhor cabeça de porco disponível no mercado (esqueci-me de dizer há bocado que era para isso que servia o teste de urina), qual a melhor lima de unhas de três faces, e qual o melhor autoclismo japonês, agora já sei qual o melhor GPS para montar no carro!
Apesar do meu telemóvel (aquele que usa aquele carregador que perdi, mas já encontrei) ter GPS, o da minha mulher também ter GPS, o meu Tablet de 10 polegadas também ter GPS (apesar que não me consigo imaginar a conduzir com um "charuto" daqueles pendurado à minha frente, um gajo também tem de ver a estrada, dá jeito para conduzir), vejam lá o que estive a ler? Um enorme e minucioso artigo sobre GPS(ses)!
Qual é o limite do desespero humano quando não tem nada para fazer a não ser esperar...por "aquilo" que tem de esperar num wc?
De repente sinto uma paz. Não fosse o formigueiro nas pernas por estar sentado na sanita e tudo seria perfeito. Dentro de mim algo se cala… Nada me perturba, nada afecta o meu pensar ou sentir, apenas um horizonte interno claro e luminoso, um céu sem nuvens ou movimento.
Deito-me “internamente” afundando-me nesta doce sensação. No céu íntimo a paz impera. Apenas agora se levante uma brisa, ligeira, morna e, algures na distância, algo surge que lenta mas seguramente, vai crescendo, prendendo assim progressivamente a minha atenção.
O objecto gira sobre si mesmo. Parece quase uma ave negra, em queda sobre a presa, mas agora vejo que não é algo animal … Agora já bem perto de mim, o objecto, animada pelo meu virtual vento cai a meus pés, e ali está ela…Negra…Luzidia…De aspecto sólido e simultaneamente confortável…Ela…A luva…

© Manuel Tavares

2 comentários:

  1. a maldita luva aterrou-te no wc???
    DISTRAÍDO, OBSESSIVO E sem qualquer sentido de oportunidade no que diz respeito a objectos :)
    Pensei que isto ia redundar noutra obstipação!
    LOL

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    Respostas
    1. A aterragem foi no meu universo virtual...Para lhe perturbar a paz.

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